Quarentena, Retomada e o peso da Cultura

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O termo “quarentena” vem da época da peste negra, doença que devastou grande parte da Europa nos séculos 14 e 15. Nesse período, qualquer tripulação que chegasse do oriente deveria esperar 40 dias para desembarcar em terra firme.

Mais de meio milênio depois e o mundo humano atual, tecnológico, conectado, quase virtual, vê sua hegemonia ruir com algo invisível, um vírus provavelmente criado sem querer em uma feira de animais vivos comestíveis.

A China até bem pouco tempo atrás vivia assolada na miséria extrema e uma das formas para parte da população vencer a fome foi a liberação do comércio de animais, digamos, “estranhos”.

Essas feiras de animais vivos se tornaram parte da cultura chinesa e com certeza eles não criaram animais para produzir um novo coronavírus de propósito, até porque a cidade de Wuhan foi uma das mais afetadas e a primeira a lidar com a nova doença.

Tudo isso para falarmos do encontro entre cultura e o atual momento.

O fato do surgimento de uma doença nova, sem cura e altamente contagiosa é algo realmente sério e que dá medo. A pandemia que mais vem sendo comparada a essa foi a gripe espanhola que há 100 anos atrás matou aproximadamente 50 milhões de pessoas.

Curiosidade: leva o nome espanhola, pois no período da 1ª Guerra, a Espanha era um dos únicos países neutros na Europa, portanto sua imprensa era livre e foi quem começou a relatar as mortes pela doença, enquanto os países em guerra não deixavam espalhar a notícia para não causar ainda mais pânico em sua população e em seus soldados. Portanto, a Espanha não é a origem da gripe. Estima-se que a 1ª Guerra Mundial tenha matado ao todo 20 milhões de pessoas entre soldados e civis.

Mas tudo isso não gera apenas caos na saúde pública.

E a economia?

O segundo pior problema da pandemia para a maioria das pessoas é a crise econômica que já está batendo à porta e pode ter consequências sociais ainda maiores.

Nesse momento, as pessoas estão comprando somente o necessário (ou menos do que isso) e isso afeta a sociedade a ponto dos maiores especialistas no assunto falarem que essa crise econômica é maior do que a crash de 1929, a crise do petróleo de 1973 e da bolha imobiliária e subprime de 2008.

Tudo isso porque a cultura do consumismo não pode ser colocada em prática, pois as pessoas estão em isolamento em casa (ou deveriam estar).

Ao que parece, o mundo produz mais do que o necessário para abastecer as pessoas. Será que temos mais pares de tênis do que pés no mundo? Mais celulares do que indivíduos e mais frango congelado do que o necessário? Consumir mais nos torna mais feliz?

Steve Cutts retrata essa busca pela felicidade em seu vídeo Happiness, que você pode acessar aqui.

Eu não sei, mas acho que o sistema econômico irá mudar depois disso. Talvez as pessoas produzam com mais consciência e consumam de uma melhor forma, mas talvez não. De repente os países irão colaborar mais e competir menos para resolverem os problemas no mundo, ou talvez não.

Não podemos saber nada do futuro. Porém é possível analisar o que seria melhor para o mundo a partir de então e de alguma forma se engajar nessa melhoria. Pessoas falam que o Covid-19 irá acelerar a mudança estrutural que os países precisam para serem mais sustentáveis e menos desiguais socialmente. Se conseguirmos fazer isso, daqui 10 anos, o que estaremos falando dessa doença?

Espero que o mundo esteja um lugar melhor daqui uma década, mas para isso é preciso repensar nossas ações agora. Cuidar da saúde, da imunidade, ler, poupar e cooperar são atividades importantes mais do que nunca e dificilmente sairão de moda.

Retomada

Ao que parece, o isolamento que se iniciou em março deu resultado no país. E é aí que mora o perigo. Com a sensação de que o pior já passou, indústrias, comércios e serviços já começam a retomar suas atividades aos poucos.

Nós mesmos do DNA, por solicitação de alguns profissionais, estamos reabrindo o espaço para que todos que precisem possam atender seus pacientes com o máximo de precaução possível, de forma escalonada para evitar ao máximo o encontro de profissionais e pacientes, além de termos regras mais rígidas quanto limpeza e higienização. Dando preferência para pacientes graves e fora do grupo de risco.

Se você consegue atender seus pacientes online, permaneça desse modo. Ao menos por enquanto. Caso seus pacientes não tenham aderido aos atendimentos online, envie uma mensagem para todos eles perguntando como as coisas estão, se as coisas estão bem e se colocando a disposição caso eles precisem.

A retomada não será igual a antes. Não pense que seu paciente só está esperando o governo liberar o isolamento para que tudo volte ao normal. Os medos são outros, os problemas são outros e se você não estiver cuidando dessa relação agora, demonstrando empatia, talvez ele não retorne ao consultório tão cedo. Entre em contato com ele hoje, mesmo que seja apenas para perguntar: tá tudo bem aí?

Não sabemos o fim dessa pandemia nem os resultados dela na sociedade, mas é nosso dever mitigar os impactos negativos que ela está ocasionando nas pessoas e agir de forma construtiva para que o momento sirva de aprendizado para as mudanças que devem ocorrer.

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*texto elaborado por Thiago Filomena Lombard, médico do Hospital Conceição em Porto Alegre/RS. Nos últimos dias, comemoramos os 2 anos do DNA

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