Amor em tempos de covid

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*texto elaborado por Thiago Filomena Lombard, médico do Hospital Conceição em Porto Alegre/RS.

Nos últimos dias, comemoramos os 2 anos do DNA Espaço de Saúde e também o Dia dos Namorados, datas importantes que falam de amor e em tempos tão difíceis.

Estamos tão distantes uns dos outros, não nos encontramos mais, não há mais o “olho no olho”, só o mundo virtual.

Vivemos sozinhos, como um vapor do século 19 fundeado, isolado, com uma bandeira no mastro quando em quarentena por moléstias infectocontagiosas como o Cólera.

Bandeira que na verdade clama por atenção, afeto e amor. Amor a si mesmo, aos nossos companheiros, familiares, amigos, ao próximo e às dificuldades e fraquezas dos outros seres humanos desse arquipélago de 2020.

Relato

Tive uma experiência enriquecedora essa semana: um paciente com câncer, teoricamente “curado” com a oclusão das artérias de uma de suas pernas – quadro grave, com risco de amputação e de vida.

Levamos ele para cirurgia, desobstruimos as artérias e no dia seguinte….novos trombos, tomografia sugerindo volta do câncer (a possível causa da formação repetida de trombos).

Necessidade de cirurgia de emergência, uma “Ponte de Safena” na perna, 8 horas de cirurgia usando colete de chumbo pelo uso de RX.

Conversamos com os filhos, explicamos a situação, resultado aparentemente satisfatório e, como já era tarde, madrugada, chovendo e precisava estar antes das 6 no hospital, dormi lá mesmo.

Acordei e fui vê-lo, nova trombose, perna já inviável e com necessidade de amputação. Chamamos a família e em acordo, realizamos a amputação.

Após o procedimento, fui conversar com o filho e o que ele me disse fez valer todo o esforço:

“Obrigado, eu vejo no teu rosto o quanto tu tá cansado, muito obrigado pelo cuidado com meu pai. Eu sei que a cirurgia não deu certo, mas sei que vocês fizeram muito mais do que a obrigação de vocês, fizeram e estão fazendo de tudo pela vida dele”.

Não resisti, lacrimejando, cansado, agradeci, disse que eram as melhores palavras que tinha escutado nesses tempos difíceis e que vindas de alguém que está sofrendo tanto pela doença de alguém que ama, se tornam mais nobres ainda.

Essa “bandeira de quarentena erguida à fórceps” nos fará mais fortes, humanos, com toda a forma de amor possível para o desembarque no continente unido do futuro que sim, ele vai chegar, essa quarentena vai acabar, seja qual for a cor da nossa bandeira.

Thiago Filomena Lombard

Cirurgião

Médico Residente em Cirurgia Vascular do Grupo Hospitalar Conceição

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